Marcelo de Moraes
Documentos confidenciais mostram que o governo brasileiro superestimou as chances de a Argentina se sair bem no confronto com a Grã-Bretanha pela soberania das Ilhas Malvinas, em 1982. Os papéis secretos e inéditos, aos quais o Estado teve acesso, estão no Arquivo Nacional, em Brasília, e deixam claro que a ditadura confiou demais no governo militar argentino, que propagava um poderio bélico que não se confirmou no conflito.
O choque entre os dois países, iniciado com a ocupação das Malvinas pela Argentina, em abril, terminou dois meses depois com a retomada britânica do arquipélago. A guerra acabou com um saldo de centenas de mortos do lado argentino, sendo mais de 300 no afundamento do cruzador General Belgrano.
De quebra, a derrota desmoralizou politicamente a ditadura militar argentina. Batido pelos britânicos, o general Leopoldo Galtieri, líder da junta que governava o país, renunciou. Os militares se mantiveram no poder por pouco tempo e a Argentina se redemocratizou, em 1983, com a eleição de Raúl Alfonsín.
Nos documentos, o serviço de inteligência brasileiro se baseia em informes obtidos pelos contatos mais constantes com os argentinos. A proximidade territorial e a identificação com o governo vizinho – também comandado por militares, como o Brasil – fazia com que a inteligência nacional desse mais credibilidade às informações recebidas diretamente dessa fonte. E os argentinos aproveitaram a situação para tentar vender sua força militar.
“Apesar de sua evidente superioridade qualitativa e quantitativa, a esquadra britânica encontrará dificuldades para sobrepor-se à Armada argentina, caso haja confronto entre as forças dos dois países em virtude da superioridade aérea local argentina”, cita o Sumário Diário de Informações nº 8-E2.1, produzido pelo Estado Maior do Exército do Brasil, em 15 de abril de 1982.
Conflito vizinho. O documento, classificado como confidencial, faz parte de um lote de 59 informes produzidos diariamente pela inteligência militar brasileira, a partir de abril de 1982, como forma de manter o governo atualizado sobre os desdobramento da guerra entre os dois países.
Com esses diários brasileiros da Guerra das Malvinas, o governo queria se prevenir contra um conflito que se desenrolava na vizinhança do território nacional, que poderia ter consequências graves.
No entanto, as avaliações brasileiras custaram a detectar a situação real da guerra. Nos primeiros informes, previram dificuldades de operações que a Grã-Bretanha acabou não tendo.
“No caso de uma batalha naval, devem ser consideradas as grandes dificuldades logísticas para abastecimento da esquadra inglesa, em contraposição à facilidade de apoio com que poderá contar a Armada argentina, em face da proximidade das Ilhas Malvinas do continente”, diz o texto, que chega a classificar como “remota” a hipótese de um desembarque britânico nas ilhas.
A evolução das operações da Grã-Bretanha e a falta de acordo diplomático fizeram com que os militares brasileiros começassem a mudar de tom e passassem a admitir que a situação argentina era muito difícil.
O Sumário Diário de Informações nº 19-E2.1, do dia 3 de maio, ainda tenta reconhecer algum tipo de vantagem para os argentinos nas batalhas, mas se rende à evidência do poderio britânico.
“Os combates do dia 1.º de maio, sábado, duraram de 4h40 às 21 horas, com interrupções. Houve um saldo favorável aos argentinos, já que conseguiram abortar três tentativas de desembarque britânico nas ilhas”, diz o texto.
Fogo amigo. No entanto, o mesmo informe, também classificado como confidencial, se rende à impotência militar argentina diante da supremacia dos adversários.
“Apesar dos meios de que dispõe, a FAA (Força Aérea Argentina) infligiu apenas o que podem ser considerados pequenos danos às forças britânicas”, reconheceu a inteligência brasileira, que narra até mesmo incidentes de fogo amigo envolvendo as manobras militares da Argentina para rechaçar os adversários.

“Os argentinos ressentiram-se da falta de um adestramento mais adequado e de experiência em combate. Um Mirage chegou a abater um Dagger da própria FAA”,
cita o documento.
O afundamento do General Belgrano também pesou nessa mudança de enfoque das observações feitas pelos militares brasileiros. “O torpedeamento do General Belgrano acentua a disparidade de forças navais existentes entre os dois países, além de significar um sério golpe moral e psicológico para a Armada argentina”, diz o informe.
Derrota iminente. No dia seguinte, um outro informe especial, chamado Apreciação nº 002, produzido pelo Estado Maior do Exército brasileiro e classificado como secreto, já não tinha dúvidas sobre a derrota argentina, que se confirmaria mais tarde, em junho.
“Militarmente, os argentinos poderão obter êxitos em combates isolados e mesmo, efetuando-se um desembarque nas Malvinas, impor severas perdas aos britânicos. No entanto, o governo argentino não pode esperar uma vitória militar final nessa disputa, especialmente considerando a decisão do governo americano de apoiar militarmente a Grã-Bretanha”, diz o texto.
Os diários ainda chamavam a atenção para o esforço argentino para não fazer alarde em relação aos mortos de suas fileiras para evitar uma queda de moral de suas tropas.
FONTE: O Estado de São Paulo