quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Nelson Jobim sobe tom de críticas aos EUA e protege o pré-sal

RIO - O Brasil não conversará com os Estados Unidos sobre a possibilidade de criar uma "Bacia do Atlântico", ligando o oceano Sul ao Norte, até que a potência passe a referendar a Convenção do Mar, da Organização das Nações Unidas (ONU). A afirmação foi feita pelo ministro da Defesa brasileiro, Nelson Jobim.
Em tom bastante crítico em relação aos EUA, Jobim disse que os direitos brasileiros sobre os fundos marinhos que garantem a exploração do pré-sal, dentro da margem de 350 milhas a partir do litoral, decorrem da Convenção do Mar. E, por isso, "só é possível conversar com um país que respeite essa regra".
Acadêmicos americanos sugeriram ao Brasil que se criasse uma soberania compartilhada sobre o Atlântico, "apagando" a linha entre o Atlântico Sul e o Atlântico Norte. No entanto, Jobim questionou sobre quais seriam os termos desse acordo.
"Me pergunto: qual é a soberania que os Estados Unidos querem compartilhar? Querem compartilhar também a deles ou só querem compartilhar a nossa?", indagou Jobim, diante de uma plateia de militares na VII Conferência de Segurança Internacional do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro.
A dois meses do fim de seu mandato, Jobim subiu bastante o tom das críticas aos Estados Unidos e disse que, apesar de o Brasil amar a paz, isso não significa "incapacidade de defender os seus interesses". Ele afirmou não ter planos para participar do governo de Dilma Rousseff, que se inicia a partir de janeiro.
O ministro foi ponderado ao dizer que o Brasil pode ter relações com os Estados Unidos, mas frisou que a "Defesa sul-americana quem faz são os sul-americanos". Em tom bastante crítico à postura da potência do Atlântico Norte em relação ao resto do mundo, o ministro da Defesa disse ser evidente que os "sul-americanos não serão parceiros dos Estados Unidos para que eles mantenham seu papel no mundo".
Para criticar a postura ofensiva dos EUA, o ministro citou a interferência do país sobre a China, a Rússia e, principalmente, sobre a Europa com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). E seria justamente esta inserção americana na OTAN que tornaria a realidade da América do Sul mais contrastante com a da Europa.
Durante a palestra, o ministro chegou a dizer, por exemplo, que o único resultado que o embargo econômico a Cuba teve foi produzir um país "orgulhoso, pobre e com ódio dos Estados Unidos". "A política internacional não pode ser definida a partir do que convém à América do Norte", ressaltou.
O ministro afirmou que o Exército brasileiro "não pode, não deve" aliar-se a exércitos que não aceitem ser comandados por outras forças, como a ONU. Isso faz com que os EUA não participem das ações humanitárias da ONU, por exemplo.
Jobim aproveitou o contexto para dizer que há uma relação assimétrica entre os países detentores de armas nucleares e os não detentores, que encontraram, em sua opinião, dificuldades de desenvolver tecnologia para o fornecimento de energia elétrica a partir de usinas nucleares.
Ele lembrou da crise energética vivida pela Venezuela antes da decisão de desenvolver energia elétrica nuclear. "Essa atitude é aplaudida pelo Brasil, porque foi isso que o Brasil fez", disse.
(Juliana Ennes | Valor)

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