quarta-feira, 9 de junho de 2010

França e Itália disputam contrato de pelo menos US$ 5 bilhões para fornecer fragatas e navios de patrulha para a Marinha

O mar deverá ser o palco da mais acirradas batalha entre Itália e França pelo mercado brasileiro de defesa. A peleja será travada em torno dos planos da Marinha de comprar de três a cinco grandes fragatas, com custo ao redor de US$ 500 milhões por unidade. Também devem fazer parte da encomenda outros 14 navios de patrulha de médio porte, ao preço médio de US$ 100 milhões cada.

Somando-se todos os custos com fabricação, sistemas, armas,munição, treinamento e manutenção, o custo total deve superar US$ 5 bilhões ao longo dos anos. Segundo uma fonte militar, a tendência é de que a força naval faça uma escolha internamente ao invés de abrir uma concorrência externa. A operação deve ser anunciada até o final do ano.

Tanto franceses quanto italianos planejam oferecer à Marinha um novo e avança do tipo de navio conhecido como Fremm, sigla para Fregata Europea Multi-Missione. Trata-se de um projeto conjunto entre os dois países para uma embarcação que consiga executar ao mesmo tempo missões contra aviões, submarinos e outros navios. Com armamentos avançados, sonares de última geração e um design que oferece baixa visibilidade ao radar, a Fremm é considerada um dos conceitos navais militares mais importantes dos últimos anos.

A diferença entre as duas ofertas estará no preço e na origem dos equipamentos. Se a França levar a melhor, os navios serão feitos pela fabricante Armaris, com sensores locais. Caso os italianos vençam a encomenda, as fragatas serão inicialmente construídas pelos estaleiros Fincantieri — e posteriormente em instalações nacionais—e equipados com sistemas eletrônicos e de armas da Selex Sistemi Integrati, que pertence ao grupo Finmeccanica. ―O Fremm é um excelente projeto. É simples e pode ser facialmente adaptado às necessidades de cada país devido à sua construção modular.
Achamos que nossa proposta será mais atraente‖, garante Pier Francesco Guarguaglini,CEO do grupo italiano de defesa.

Os novos navios são parte fundamental do projeto da Marinha de proteger as plataformas que irão extrair o petróleo da camada pré-sal e patrulhar a região de entrada do rio Amazonas, que deverá receber uma nova esquadra – cuja a base está sendo disputada por diversos estados da região, especialmente o Maranhão e o Pará. A expectativa dos militares é que o próprio combustível vindo do fundo do mar ajude a financiar as compras navais. Com as aquisições, ―o Brasil se consolida como o país mais quente do setor naval no momento, segundo o gerente regional da fabricante de peças de artilharia e blindados Oto Melara, Gianfranco Pazienza.

Domínio francês
Nos últimos anos, a Marinha se tornou a grande porta de entrada para equipamentos franceses nas forças armadas brasileiras, principalmente após a aquisição do porta-aviões São Paulo — que servia na marinha francesa —, em2000. De lá para cá o país dominou as vendas de equipamentos, que culminaram no ano passado com o anúncio da encomenda de quatro submarinos avançados da classe Scorpène, além do desenvolvimento conjunto de um submarino movido a propulsão nuclear.
Para reverter esse quadro, Marina Grossi, CEO da Selex Sistema Integrati, investe na experiência. A empresa atua junto ao Brasil desde a década de 1970, quando forneceu radares para aviões da Força Aérea Brasileira (FAB). Mais recentemente, na área naval, atuou na modernização de fragatas da classe Niterói e de corvetas da classe Barroso. Agora está abrindo uma unidade no Rio de Janeiro.
―O novo centro carioca não é atrelado ao resultado da venda das fragatas. Existem muitas outras oportunidades no Brasil, avisa.
―Mas, em qualquer caso, faremos a transferência integral da tecnologia, completa.
Protegendo os mares
Outra grande ambição dos italianos é a participação no programa de proteção naval do país. A Marinha pretende implantar um sistema para vigiar toda a movimentação que ocorre na faixa naval que vai da costa até a 200 milhas navaispodendo chegar a 350 milhas, dependendo de uma resolução estudada pela Organização das Nações Unidas (ONU)da chamada zona econômica exclusiva, uma região que concentra o pré-sal e a maior parte das riquezas marítimas do país.

O sistema que protegerá a região conhecida como Amazônia Azul será complexo: vai processar em um centro, em tempo real, as informações vindas de radares instalados ao longo da costa, a bordo de navios, aviões, helicópteros e plataformas de petróleo, e talvez até mesmo de satélites. O objetivo da Selex Sistemi Integrati é criar uma infraestrutura onde os dados vindos de todas essas diferentes plataformas com equipamentos de vários países diferentes conversem entre si e sejam oferecidos aos operadores de modo unificado.

―Podemos fazer os radares propriamente ditos em conjunto com outras empresas da Finmeccanica, ou então fazer a integração de informações. A opção fica a cargo dos clientes, finaliza Marina.

Canhão embarcado usa munição inteligente

Os canhões embarcados também fazem parte da oferta italiana. O destaque vai para as torres com peças de artilharia fabricadas pela Oto Melara. São canhões de fogo rápido

a cadência é de até 2 disparos por segundo , os únicos modelos no mundo com sistema de munição inteligente. O modelo Dart coloca aletas de direção nos projéteis, que podem então ser guiados contra alvos, além de oferecem uma defesa contra ataques de foguetes. Na prática, o sistema transforma a munição em pequenos mísseis, como explica o gerente regional Gianfranco Pazienza.

“Ferrari dos torpedos” é a arma secreta dos italianos no oceano

Mísseis antinavio também fazem parte do pacote oferecido para as novas fragatas brasileiras

A área de torpedos é considerada estratégica pelos italianos para tentar afundar a predominância francesa na marinha brasileira. A ideia é que, com a compra dos novos submarinos franceses Scorpène, o Brasil terá que modernizar seu estoque de armas, atualmente baseado em modelos americanos já obsoletos. A grande aposta da Whitehead Alenia Sistemi Subacquei (WASS) é o torpedo pesado Black Shark, definido como ―a Ferrari dos torpedos pelo diretor Renzo Lunardi.

―É uma arma que usa sistemas de sonar passivo até a poucos quilômetros do alvo, então não pode ser detectada até que seja tarde demais, afirma.

O potencial financeiro do negócio é elevado: o preço por unidade está em torno de € 2 milhões.

Multiplicando as cerca de 20 unidades que serão necessárias para uma frota de oito submarinos, chegase ao total mínimo de 160 torpedos para o Brasil, sem contar os que serão utilizados nos navios e os que ficarão em estoque. Uma eventual encomenda não sairia por menos de € 500 milhões.

Armamentos navais também são o foco da oferta que outra empresa do grupo, a MBDA, pretende fazer ao Brasil. Uma das três grandes companhias globais na área de mísseis, a MBDA vê na expansão da frota brasileira uma oportunidade de ampliar sua presença no mercado sulamericano, onde já está presente na Argentina, no Peru, na Venezuela e no Equador. O próprio Brasil usa atualmente os

mísseis antiaéreos Aspide, fabricados pela até então Selenia.

―Mas agora queremos entrar no mercado dos mísseis antinavio, especifica o consultor Giuliano Cottini. O objetivo é vender os modelos Otomat, de longo alcance, lançado por navios, e as unidades leves do tipo Marte, disparados a partir de helicópteros. Mais uma vez, porém, os italianos terão que superar a concorrência francesa, que já opera na marinha brasileira com os modelos Exocet.

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