terça-feira, 27 de abril de 2010

Ataques suicidas na Rússia revelam xenofobia contra os tchetchenos

Estudante Lilya Paizulayeva, de 26 anos, é exemplo do problema.
Ela e outros que moram em Moscou temem retorno das arbitrariedades.

Michael Schwirtz Do New York Times, em Moscou

Lilya Paizulayeva entrou no metrô, ansiosa, tentando manter distância da multidão e dos policiais recém-alocados ali, fortemente armados. Ela se encolheu ao ouvir o barulho metálico do trem, pressionando-se contra a parede.

Mas Lilya não estava com medo de terroristas suicidas – ela temia ser confundida com uma.

Com seu cabelo preto e grandes olhos escuros, Paizulayeva, jovem de 26 anos nascida na Tchetchênia, tem a aparência típica das pessoas da conflituosa região do norte do Cáucaso da Rússia – de onde, segundo investigadores, duas jovens mulheres viajaram para Moscou para se explodirem na multidão em pleno horário de pico, matando pelo menos 40 pessoas.



Embora para muitos os ataques sejam um lembrete preocupante das mulheres-bomba que aterrorizam a cidade há anos, as mulheres do Cáucaso, especialmente da Tchetchênia, dizem temer a volta das prisões arbitrárias, ataques xenofóbicos e hostilidade declarada que muitas delas sofreram após ataques terroristas similares no passado.

“Psicologicamente, sinto um tipo de alarme”, disse Paizulayeva, que nasceu na capital da Chechênia, Grozny, e fugiu para Moscou em 1995 com a família, quando a guerra começou ali. “Embora eu me vista como uma pessoa local, acho que talvez alguém possa me atacar no metrô”, ela disse. “Esta semana inteira me senti como uma estranha na cidade.”

Embora sejam cidadãos russos, chechenos e outras pessoas do norte do Cáucaso são muitas vezes vistos como estrangeiros na Rússia, especialmente aqui na capital, e frequentemente associados a imigrantes dos países da Ásia Central que antes eram repúblicas soviéticas. A mais de 1.600km de Moscou, a Chechênia tem seu próprio idioma, religião e costumes, assim como uma história de separatismo violento.

Já houve vários relatos de ataques de vingança contra pessoas do Cáucaso após os ataques suicidas no metrô. Recentemente, uma briga explodiu em um trem do metrô quando um grupo de passageiros insistiu em inspecionar as bolsas de várias pessoas que pareciam ser do Cáucaso, segundo o Sova Center, uma organização que monitora a violência xenofóbica.

Ataques contra pessoas de pele e cabelo mais escuro, típicos dos caucasianos, não são incomuns na Rússia.

Porém, são as mulheres, especialmente as chechenas, que são frequentemente associadas a ataques suicidas. Mulheres-bomba, muitas vezes da Tchetchênia, são responsáveis por alguns dos ataques mais mortais na Rússia na última década. As chamadas “viúvas negras” realizaram pelo menos 16 ataques, matando centenas de pessoas.

Como essas mulheres, Paizulayeva sofreu os horrores e perdas da Guerra, mas a similaridade termina aqui. Com seu esmalte de unhas vermelho e botas de cano alto, apenas seu cabelo e olhos pretos a distinguem das muitas mulheres de pele clara e olhos azuis que correm apressadas pela estação de metrô Praça da Revolução. Estudante de jornalismo de uma prestigiada universidade de Moscou, Paizulayeva disse hoje considerar Moscou como sua cidade-natal.

Entretanto, ela nota os olhares nervosos quando entra em um ônibus ou trem. Há um ano, um homem gritou “Chechena!” e a agarrou pelo pescoço enquanto ela andava pelo metrô. Ela conseguiu escapar.
Até alguns conhecidos da faculdade, segundo ela, a tratam com “cautela”.

“Quando esses incidentes ocorrem”, ela disse, “você sente uma frieza”.

Os líderes da Rússia parecem estar tentando minimizar o elemento étnico dos ataques. Recentemente, o presidente Dimitri A. Medvedev reprovou jornalistas e autoridades por se referirem a pessoas do Cáucaso como se elas fossem estrangeiras.

“Não é uma província estrangeira, é nosso país”, disse Medvedev numa reunião no Daguestão. “Um número enorme de pessoas mora aqui, e a maioria delas são pessoas normais, honestas e decentes.”

Porém, o pedido do presidente não impediu que autoridades de menor hierarquia pedissem medidas de segurança mais rígidas focando diretamente em caucasianos. Desde os ataques, houve vários pedidos por um plano proposto por investigadores russos, no começo de março, de coletar amostras de DNA e impressões digitais de todos os moradores da região.

Várias pessoas que monitoram a violência xenofóbica na Rússia disseram que os ataques recentes ainda não provocaram o aumento do sentimento anti-tchetcheno que muitas vezes acompanhou os ataques anteriores, nos anos em que ocorreram com maior frequência.

“É diferente do que vimos antes”, disse Svetlana Gannushkina, diretora da Civil Assistance, um grupo de direitos humanos.

“Não vejo as pessoas alarmadas como antes”, disse Gannushkina, acrescentando: “Mas ainda não sabemos o que irá acontecer.”

Mesmo antes dos ataques recentes, os chechenos tinham dificuldades em escapar do estigma associado à sua terra natal depois de tantos anos de violência e difamação.

Até pessoas que não parecem particularmente tchetchenas, como Alshna, uma mulher chechena de 36 anos que se recusou a fornecer seu sobrenome, disseram carregar o estima em seus passaportes, que indicam o local de nascimento.

Uma olhada no passaporte foi o suficiente para negar habitação, emprego e assistência médica, disse Alshna, que mora em Moscou há 15 anos. A diretora de uma escola local se recusou a registrar a filha de Alshna, dizendo temer que a menina pudesse “chegar e explodir tudo.”

“Aqui, a cada dois passos a polícia para e insulta você”, contou Alshna. “Mesmo que sejam pessoas decentes, eles ainda têm muito medo de nós.”

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