quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

APOIO LOGÍSTICO NA FEB

A FEB, ao chegar à Itália, passou por três fases distintas:


- a preparação e a adaptação, compreendendo: equipamento da tropa; instrumento e emprego do armamento; e aclimatação ao ambiente;

- a estabilização de 4 meses, durante o inverno, chamada “defensiva agressiva”, e;

- a grande movimentação decorrente da Ofensiva da Primavera.

A FEB levou o seu equipamento individual e o fardamento “Tipo FEB”, de brim e de flanela, com peças internas, também de brim e de flanela.

Na Itália, foram recebidos artigos diversos que completaram o material de estacionamento e o uniforme, para suportar o intenso frio e a lama. As unidades da 1ª linha receberam equipamentos e agasalhos para a vida na neve, sob temperaturas próximas de 15 graus negativos.

Quanto à alimentação tivemos alguns problemas. No primeiro estacionamento, a demora no fornecimento de fogões e o desconhecimento de seu manejo obrigaram ao consumo, por 4 dias, da Ração C, constituída de por duas latas de cada refeição, de modo que, no fim de cada dia, tiveram que ser retiradas e queimadas mais de 30 mil latas.

Um problema sério foi conseguir sapatos americanos, nos tamanhos dos pés de nossos homens. Além do mais, a numeração era diferente. Uma estatística rápida levantou os totais de cada tamanho. Finalmente o calçado foi fornecido.

A tropa, depois de 15 dias, quando do deslocamento para o norte, foi organizada em quatro escalões de embarque, da ordem de 1.200 homens, que seguiam a pé, às 5 h da manhã, rumo à estação de Bagnoli, num percurso de 10 Km, para embarcar em composição ferroviária.

O transbordo se dava, no fim da viagem, por volta das 17h, para 60 caminhões americanos, com reboques que rumavam para a cidade de Tarquínia. Enquanto esse movimento ferroviário era executado, um comboio diário de caminhões percorria 350 Km, levando pessoal e material para o mesmo destino.

Durante 4 dias essa operação se repetiu, enquanto à noite caminhões transportavam para o porto 11 mil volumes que seguiram por mar para Civitavecchia – sacos B e bagagem das unidades.

Nessa fase inicial, a Companhia de Manutenção teve papel destacado, montando viaturas e recebendo armamento para serem entregues às diversas unidades e a diversos órgãos já em atividade. Nessa fase, 400 viaturas passaram pela Companhia de Manutenção e foram entregues a tropas estacionada em Tarquínia. A 15 de agosto, o 1º Escalão deslocou-se, com meios próprios, para Vada. Foi a primeira prova a que se submeteram unidades e motoristas em deslocamento de tamanha envergadura.

Viaturas entregues 3 a 4 horas antes da partida tiveram que ser dirigidas por motoristas não adaptados e sem prática de deslocamento em comboio e à noite. Entretanto, o tempo e a experiência adquirida proporcionaram procedimento bem mais aceitável nos movimentos que se seguiram.

Nos primeiros estacionamentos, as atividades logísticas eram, praticamente, de recebimento e distribuição de rações, gasolina, material de intendência, viaturas e armamento. A entrada em ação do Destacamento FEB modificou, por completo, as atividades dos efetivos dos Serviços, com efetivos reduzidos, para vencer grandes distâncias até os órgãos fornecedores americanos e a linha de frente.

Os três Batalhões do 6º RI, que eram a base do Destacamento FEB, e os demais elementos foram substituindo tropas americanas na sua nova frente. A 4ª Seção teve a seu cargo a realização de todo o transporte de pessoal e material, feito em 5 dias, do Sercchio para o Reno. Empregou 397 viaturas, de várias unidades que conduziram 4.283 homens e seu material. O controle do trânsito ficou a cargo do Pelotão de Polícia, num percurso de 120 Km. A chegada das unidades do grosso da 1ª DIE à Região de Porreta Terme e a sua entrada em linha constituíram um capítulo especial nas atividades de transporte.

A Estrada 64 era via de suprimento e os caminhos que partiam das estradas principais subiam encostas abruptas, sujeitas aos fogos adversários. O Serviço de Engenharia lutou bravamente para manter esses caminhos em condições de trânsito.

Os quatro ataques a Monte Castelo e os movimentos de patrulhas exigiram dos Serviços ações especiais.

Os primeiros mortos e feridos puseram em atividade os órgãos do Serviço de Intendência e do Serviço de Saúde, que evacuaram os, mortos para o Cemitério de Pistóia. O Serviço de Saúde levou os feridos para o 32º Hospital, que atendia em primeira mão, os feridos graves, e para o 16º Hospital de Evacuação, mais à retaguarda, em Pistóia.

O Serviço de Engenharia, além do trabalho de conservação de estradas, forneceu meios para disfarce e material de organização do terreno, paras reforçar as posições defensivas.

O Serviço de Intendência manteve a regularidade do suprimento por intermédio de um comboio diário que, dos depósitos do V Exército, transportava gênero e gasolina para Lê Piève, onde mantinha um Posto de Distribuição para atender às unidades e aos órgãos diversos, em ação na frente do Vale do Reno, apesar da neve que cobria as estradas.

O Serviço de Transmissões instalou uma rede telefônica perfeita, permitindo ligações para qualquer unidade empenhada e com todos os órgãos em atividade, inclusive para a retaguarda com órgãos brasileiros e americanos.

O Serviço de Material Bélico, por intermédio da Companhia de Manutenção, instalada em Pistóia, reparou viaturas e armas de toda espécie e forneceu a munição necessária ao combate.

Por sua vez, a 1ª Seção empenhou-se no recompletamento das Unidades, requisitando homens ao Depósito de Pessoal que com seu efetivo da ordem de 10 mil homens, estacionado em Stafole, cobriu os claros decorrentes de mortes e baixas.

A 3ª fase teve inicio com a tomada de Monte Castelo, La Serra e Castelnovo, no fim do mês de fevereiro de 1945. As tropas brasileiras, sacudidas por esses acontecimentos, depois de longa permanência na neve e sob cargas de tantas apreensões, foi aliviada em seu equipamento e não mais se deteve até o término da campanha. A 4ª Seção, na previsão de grandes transportes, estabeleceu e previu Postos de Polícia para o controle do trânsito e acionou o Serviço de Intendência, para a constituição de estoques de gasolina e de rações de reserva em pontos avançados. Prescreveu, ainda, a localização de pontos de coleta do Pelotão de Sepultamento.

No aproveitamento do êxito, os deslocamentos caracterizaram-se pelos movimentos de tropa a longas distâncias e em prazos curtos. As unidades de Infantaria deixavam, ao longo das estradas, suas munições excedentes e seus canhões. A própria Artilharia empregou seus caminhões no transporte da Infantaria, organizando o que se chamou de “Empresa de Mudança Roda de Ouro”, enquanto seus canhões foram sendo grupados em parques improvisados à margem das estradas. A Infantaria tinha que se deslocar profunda e rapidamente para barrar todas as saídas que dos Apeninos desembocassem no Vale do Rio Pó.

O Serviço de Saúde teve na vacinação de todo o efetivo da FEB no Brasil, o principal fator responsável pelo satisfatório estado sanitário. Perfeitamente entrosado com os hospitais e órgãos americanos de saúde, o nosso Serviço cumpriu fielmente a sua tarefa. Evacuou os feridos e doentes com seus próprios meios e, quando foi necessário, recebeu ajuda do V Exército, como no primeiro ataque a Monte Castelo, quando 143 baixas de combate fizeram congestionar a corrente de transporte para o 16º Hospital de Evacuação, em Pistóia, em virtude da grande distância a ser percorrida. O valor de suas atividades pode ser avaliado pelo número de perdas no período de novembro de 1944 a fevereiro de 1945: 884 feridos, 3.316 doentes, 406 acidentados, rendo passado pelo Posto de Triagem – 4.606 homens, incluídos nesse total 111 aliados (americanos, ingleses e italianos), 11 feridos inimigos e 174 civis italianos.

O estado sanitário da tropa no período de novembro de 1944 a fevereiro de 1945 sofreu a influência das condições climáticas adversas a que se submeteram homens afeitos a temperaturas mais elevadas, O inicio do inverno, no final de dezembro, marcou o ponto alto das baixas por doença, com 1176 homens retirados de suas funções, principalmente por afecções nas vias respiratórias. O “pé-de-trincheira” foi galhardamente vencido pela artimanha do nosso pracinha. Enquanto tínhamos 50 homens nos hospitais, os americanos tinham dez vezes mais. Isso deu motivo a uma investigação, a pedido dos órgãos americanos, intrigados com o acontecimento.

O Serviço de Intendência destacou-se entre os demais, por suas atividades diárias e ininterruptas para alimentar, vestir, aquecer, transportar o efetivo da Divisão e atender, algumas vezes, ao Depósito de pessoal, em Stáfole. Tinha ainda, missão humana e desagradável de recolher e enterrar os mortos, reunindo-os no Cemitério Brasileiro de Pistóia. Graças à sua atividade, toda a nossa tropa pode enfrentar os rigores do clima.

O Serviço de Intendência desenvolveu esforço hercúleo para que a tropa bem desempenhasse o seu papel e notável foi a sua atuação na fase final da campanha, quando tinha de apoiar contingentes que progrediam em várias direções, realizando lances profundos, afastando-se, cada vez mais, dos órgãos de suprimento.

O Comandante da FEB disse sobre as atividades logísticas:

Louvo a grande dedicação e a eficiência com que os órgãos logísticos se empenharam nos transportes, no remuniciamento e nas evacuações que, sempre impecáveis, foram certamente os elementos preponderantes dos êxitos que a Divisão alcançou. A justa apreciação das condições de tempo, dando à tropa os elementos de vida e de combate no momento oportuno, concorreu poderosamente para que o Comando executasse as suas decisões no ritmo previsto.

Nas operações que se desenvolveram, em toda a campanha, deram os órgãos logísticos cabal cumprimento ao que lhes foi exigido, graças à sua operosidade, vigilância e espírito de iniciativa e, com isso, a tropa foi atendida a tempo e à hora e as dificuldades foram contornadas com rara habilidade. O seu maior mérito está em terem conseguido ajustar todo o sistema de apoio às operações, sem falha e sem desfalecimento. Por ocasião da rendição das tropas inimigas, os seus trabalhos foram inestimáveis na organização e execução da apreensão do material capturado aos alemães, esforçando-se ininterruptamente, nas jornadas de 29 e 30 de abril, de modo a tornar mais grandiosa aquela vitória de nossas armas

General Mascarenhas de Moraes – Cmt FEB.

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